A História Moderna do Irã
Da Pérsia, ao pós-revolução, até os dias de hoje, e como funciona a estrutura de estado da República Islâmica do Irã
A República Islâmica do Irã é herdeira de uma sociedade tradicional e milenar, com uma história profunda. Embora o nome “Irã” (que se traduz como “terra dos arianos”, originado do termo Aryānām, ou Ērān) sempre tenha sido usado internamente desde o século III d.C., o território era conhecido no Ocidente como Estado Imperial da Pérsia. Em 1935, durante o governo de Reza Xá, da dinastia Pahlavi, o nome foi formalmente alterado para Irã em línguas estrangeiras como um gesto de afirmação nacionalista e “renascimento”, buscando apagar a imagem de fraqueza e subalternidade que oficiais ultranacionalistas associavam ao antigo nome.
O reinado de Reza Xá é marcado por reformas modernizadoras mas também por um crescente autoritarismo imprevisível, já que a antiga elite foi intimidada e subjugada e, com o tempo, substituída por uma nova geração de tecnocratas. Paralelamente, consolidou-se um aparato policial mais amplo, incluindo um grande número de agentes de vigilância, que passou a desempenhar um papel coercitivo na manutenção da ordem política durante o período. Esse reinado teve seu fim em 1941, no contexto da Segunda Guerra Mundial.
O Irã declarou neutralidade durante a guerra, mas foi invadido pelo Reino Unido e pela União Soviética, devido às suspeitas de ligação política do Irã com a Alemanha e também para proteger os campos de petróleo da influência dos Aliados. Reza Xá foi forçado a abdicar, sendo sucedido por seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, que assumiu o poder de forma imediata.
A questão do petróleo era o ponto central do conflito nacional. A Anglo Iranian Oil Company (AIOC) — que posteriormente, em 1954, se tornou a British Petroleum —, que pertencia ao governo britânico, não era apenas uma fonte vital para reabastecer a economia britânica do pós-guerra, mas também uma fonte de renda estável, tendo expandido suas operações para além do Irã, chegando ao vizinho Iraque. A AIOC operava o setor quase como uma “plantação colonial”, onde o Irã recebia apenas 16% do total de royalties. Em Abadan, enquanto os britânicos viviam em luxo, os trabalhadores iranianos habitavam um local de baixa infraestrutura conhecido como Kaghazabad (Cidade de Papel), sem água corrente ou eletricidade, sob o cheiro sulfuroso do óleo queimado.
Isso tornou populares os candidatos nacionalistas que defendiam a nacionalização das reservas naturais. Esse cenário impulsionou Mohammad Mossadegh, um advogado educado na Suíça, que serviu cargos do governo nacional em tempo anteriores e de linhagem nobre, que defendia o “equilíbrio negativo”: a recusa de conceder novas vantagens a potências estrangeiras. Eleito primeiro-ministro em 1951, Mossadegh cumpriu sua promessa de expulsar os estrangeiros que estavam se apropriando desses recursos e de nacionalizá-los, mas enfrentou um embargo marítimo britânico que paralisou a economia.
Como era de se imaginar, o Reino Unido, juntamente com seus aliados, não reagiu bem às medidas de Mossadegh e, em agosto de 1953, apenas dois anos depois de assumir o cargo, ele foi derrubado pela Operação Ajax, um golpe de Estado orquestrado pela CIA (liderada pelo Kermit Roosevelt) e pelo MI6 (agência de inteligência britânica). Após o golpe, Mossadegh foi condenado a três anos de confinamento solitário, seguidos de exílio em sua propriedade até sua morte, em 5 de março de 1967, aos 85 anos.
O período seguinte foi marcado pela consolidação de um absolutismo monárquico. Após o golpe de 1953, a repressão contra os marxistas tornou-se uma prioridade central do novo governo, focada na erradicação sistemática do Partido Tudeh. Com a criação da SAVAK em 1957, o regime consolidou um aparato de segurança projetado especificamente para extirpar o comunismo. Essa polícia secreta, com o apoio de agências estrangeiras, tornou-se um instrumento de terror, vigilância e tortura indiscriminada, silenciando tanto liberais quanto marxistas.
Por muitos anos, o povo iraniano sofreu fortemente com essas ações, que perduraram por longo tempo, ainda que nem sempre em paz, pois movimentos anti-regime eram constantemente esmagados pela polícia secreta do xá. Através da SAVAK, o déspota xá Reza Pahlavi, suprimiu movimentos de guerrilha urbana, como os Fada’iyan-e Khalq e os Mojahedin-e Khalq, além de manter sob vigilância constante intelectuais, estudantes e o clero. Esse cenário de repressão, somado à inflação galopante dos anos 70, causada pela crise da OPEP, e à alienação cultural causada por uma modernização acelerada, levou a insatisfação popular a um ponto de ruptura, unindo frentes ideológicas opostas, como movimentos de esquerda, comunistas, liberais e islâmicos com o objetivo de acabar com o governo do xá e conquistar uma revolução em um objetivo comum: a derrubada da ordem Pahlavi.
Dentro dessa coalizão, apesar de haver diversos líderes, o aiatolá Ruhollah Khomeini emergiu como a figura central ao traduzir angústias de diferentes classes para uma retórica de “Islã puro” e resistência contra a influência estrangeira. Após passar a maior parte de seus 13 anos de exílio na cidade sagrada de Najaf, no Iraque, Khomeini mudou-se para as proximidades de Paris no final de 1978. De lá, ele utilizou a projeção da mídia internacional e a distribuição de fitas cassete para galvanizar as massas no Irã, apresentando-se como um líder pragmático capaz de unificar a nação contra o xá, a quem acusava de ser uma peça das potências ocidentais.
Contrário à percepção de um apoio ocidental deliberado a Khomeini, as fontes indicam que o governo de Mohammad Reza Pahlavi era visto pelos Estados Unidos como um pilar indispensável contra o comunismo e um garantidor da segurança no Golfo Pérsico. No entanto, a partir de 1976, o xá adotou uma postura mais independente e ambiciosa, pressionando por preços de petróleo mais altos e celebrando a sua “Grande Civilização”, juntamente com uma crescente econômica e militar do país, os atritos entre Washington e Teerã intensificaram. O colapso da monarquia foi impulsionado por uma crise interna profunda, que incluía a falha das reformas agrárias e o ressentimento da classe média e dos bazares (bazaar ou bāzār), que a inteligência europeia e estadunidense foram incapazes de prever ou conter.
Com a vitória da revolução, em 1979, Khomeini instaurou a República Islâmica, fundamentada na doutrina do velayat-e faqih (a tutela, ou autoridade, do jurista), que colocava Khomeini como o Líder Supremo e árbitro final da nação. A nova Constituição criou uma estrutura complexa e, por vezes, contraditória: instituições eleitas como o Majles (parlamento) para a elaboração de leis, mas subordinadas ao Conselho dos Guardiões, que detém o poder de veto sobre qualquer legislação considerada contrária aos princípios islâmicos. A autoridade do Líder Supremo, embora teoricamente supervisionada pela Assembleia dos Peritos, foi consolidada como “absoluta” em 1989, garantindo controle sobre o judiciário, a mídia estatal e as forças armadas nacionais. É importante não confundir essas forças com o CGRI – Corpo da Guarda Revolucionária do Irã, que age como um braço militar independente e semi-autônoma de forma a garantir a permanência da revolução islâmica.
O período inicial foi marcado por crises internacionais, como a Crise dos Reféns na embaixada dos EUA (1979-1981), que Khomeini chamou de “segunda revolução” para eliminar liberais moderados do governo. Seguido pela devastadora Guerra Iraque-Irã (1980-1988) que, embora tenha causado centenas de milhares de mortes e o uso de armas químicas contra iranianos, que o então apoiado e aliado ao ocidente, Saddam Hussein, obteve com ajuda da Alemanha. A sangrenta guerra consolidou não apenas a revolução iraniana, mas consolidou o CGRI como um braço militar essencial, e elevou o status da nova ordem liderada até então por Khomeini, mas foi considerada uma “bênção” para a nação consolidando as novas estruturas de poder e o direito a “Defesa Sagrada”.
Ao final da guerra, em 1988, Khomeini ordenou a execução em massa de milhares de prisioneiros políticos (principalmente membros do grupo Mojahedin-e Khalq), um ato de retaliação e purificação interna que ocorreu em total segredo. Esse evento aprofundou a ruptura com o seu sucessor designado, o aiatolá Montazeri, que criticou as execuções e acabou destituído por Khomeini pouco antes de sua morte em 1989.
Após a morte de Khomeini em 1989, o Irã entrou na chamada Era da Reconstrução sob a presidência de Akbar Hashemi Rafsanjani, focada em grandes projetos de infraestrutura e industrialização. Durante o período do ano, um novo sucessor de Khomeini começou a se consolidar como o possível novo Líder Supremo, o então para ser aiatolá Ali Khamenei.
Com uma história de vida comum, e origem de uma família pobre, Khamenei lutou durante o conflito Irã-Iraque. Mesmo sem saber inicialmente manejar uma arma, aprendeu conforme as necessidades da guerra o exigiam, tornando-se efetivo em combate e sobrevivendo até o final da guerra. Ao longo desse período, Ali Khamenei tornou-se uma pessoa politicamente influente e foi se consolidando, nos anos seguintes, como um possível líder.
Conhecido nos dias de hoje como um grande intelectual, amante das literaturas nacionais e estrangeiras e uma figura associada a posições moderadas em relação à política externa, o recém-assassinado aiatolá obteve uma grande favorabilidade interna. Apesar da ocorrência de diversos movimentos contra-revolucionários, muitos deles admitidamente patrocinados por agências de inteligência estrangeiras, durante seus anos de governo, e mesmo diante da diversidade étnica e de opiniões existente no país, tornou-se extremamente popular e reconhecido pela comunidade islâmica xiita internacional como um dos seus maiores líderes religiosos.
Seu legado é frequentemente associado à revolução de 1979, ao mesmo tempo em que buscou abrir novas pontes comerciais e diplomáticas com países como China e Rússia. Nesse contexto, destaca-se também a formação do Eixo da Resistência, um grupo de aliados na região que inclui o Hezbollah, no Líbano, o Hamas, na Palestina, e, mais recentemente, os Houthis, no Iêmen. Segundo essa perspectiva, o Irã patrocina esses atores e atua de forma coordenada com eles para conter as pressões econômicas e agressões militares dos EUA, de Israel, de países do Golfo e membros da OTAN até os dias atuais.
Referências:
AMANAT, Abbas. Iran: A Modern History, New Haven: Yale University Press, 2017
BYRNE, Malcom. Intelligence Reporting on the Iranian Revolution: A Mized Record. National Security Archive — https://nsarchive.gwu.edu/briefing-book/iran/2019-02-11/irans-1979-revolution-revisited-failures-few-successes-us-intelligence-diplomatic-reporting
NATIONAL Security Archive. 1979 Iran Hostage Crisis Recalled. Tehran Embassy Takeover Launched 444-Day Saga with Long-Standing Implications for Iran, United States, and Global Politic, 2019 — https://nsarchive.gwu.edu/briefing-book/iran/2019-11-04/1979-iran-hostage-crisis-recalled
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BYRNE, Malcom. CIA Confirms Role in 1953 Iran Coup, National Security Archive, 2013 — https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB435
BATTLE, Joyce. U.S. Propaganda in the Middle East - The Early Cold War Version, National Security Archive, 2002 — https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB78/essay.htm
NATIONAL Security Archive. The British government […] was determined to retain its control of Iranian oil resources, and sought support from its American ally, 1951 — https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB78/propaganda%20041.pdf
BBC. Profile: Iran’s Revolutionary Guards, 2009 — http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/7064353.stm
Jazeera. The Birth of a New Class, 2010 — https://www.aljazeera.com/news/2010/4/22/the-birth-of-a-new-class
AL Jazeera.Has Trump misunderstood Iran’s IRGC and the Basij forces?, 2026 — https://www.aljazeera.com/features/2026/3/1/has-trump-misunderstood-irans-irgc-and-the-basij-forces
KIRIAKOU, John. What the World isn’t Seeing with Dr. Mohammad Marandi | DEEP FOCUS with John Kiriakou, Youtube, 2026.










Grato por essa boa visão geral sobre o Irã Moderno!
Estou o conhecendo pela participação no canal do João Carvalho, e não sei se você continuará se aprofundando sobre o Irã, mas adoraria ler uma síntese de fontes seguras, como a tua, sobre tópicos mais específicos como:
- Expandir como foi essa Revolução no Irã pelos meados de 1976-1979 e se há ações/táticas usadas pelos revolucionários que poderíamos aprender para uma possível revolução brasileira em busca de real Soberania;
- Como exatamente está estruturado o governo iraniano (lembro que tu disse ser Cientista Político também, estão creio que é um prato cheio para ti) e como essa estrutura, com esses grupos de Poder Político (O Líder Supremo; o Parlamento; a Guarda Revolucionária; e talvez outras organizações menores menos faladas e que desconheço), foram "arquitetadas" em busca de evitar uma derrubada dessa Soberania Iraniana;